Correspondes a tudo, menos a ti próprio?
Crescer, estudar, tirar um curso, namorar, ter uma casa, casar e ter filhos. O plano parece estar predefinido e a maior parte dos pais e das famílias parece sentir-se por fim realizado quando o plano dos filhos corresponde com a estrutura e a organização sonhada.
Para alguns, esse é o plano ideal e aquele que de facto corresponde aos seus ideais e aos seus propósitos de vida, para outros esse é um plano que parece aprisionar a uma vida que não se sente como autêntica e que não se deseja.
As condicionantes surgem quando estas expectativas e sonhos são apenas da família, da sociedade e não são realmente os sonhos de quem os vive. Começa, assim, a acentuar-se a pressão interna, acumulam-se ansiedades e angústias em relação ao presente e ao futuro. Este cenário aumenta a fratura interna de quem o vive, por um lado, o apelo para corresponder à família e à sociedade e para viver o que está predefinido, por outro lado, um apelo interno que mostra que o caminho mais comum, mais tradicional pode não ser o caminho de quem o está a viver.
Nesta fratura interna aquilo que não fica claro para os outros, mas que se torna altamente evidente para quem o vive são as dores emocionais, a ansiedade em relação a um futuro que se sonha diferente, em relação aos filhos que não se desejam, ao cursos que não se quer tirar ou a um casamento que não corresponde a um amor verdadeiro.
Quando esta dinâmica ocorre, primeiro esconde-se o desconforto e encontra-se uma solução de compromisso interna que permite o equilíbrio, até ao momento em que essa solução se esgota e as forças de contenção começam a dar lugar ao adoecer emocional, começam a gerar uma ansiedade que se amplifica, uma desmotivação para o dia a dia, uma tonalidade depressiva ou até o adoecer psicossomático.
É, por isso, essencial que exista consciência que não há manuais de instruções para a vida, que não há determinados objetivos que todos precisam de alcançar e que, quanto mais a vida é vivida com base nas expectativas dos outros e na imagem que se quer transmitir aos outros, em detrimento da sensibilidade interna, maior é a probabilidade do desconforto emocional surgir e de ao longo da vida ficar uma tonalidade de vazio que aprisiona e que condiciona a saúde mental.
Perante tudo isto, lembremo-nos que apesar das expectativas serem colocadas na maioria das vezes com amor, nem sempre precisam de ser correspondidas e, por isso, o primeiro caminho a percorrer deverá ser uma certa capacidade de tomar consciência sobre aquilo que se é, aquilo que se quer, no fundo ser capaz de se conhecer a si próprio, para se ser capaz de criar condições — internas e externas — para viver a vida que de facto se deseja. Sendo que para o fazer, às vezes, é preciso quebrar crenças e expectativas — não só externas, mas também internas —, definir limites, ser-se assertivo e confiante.
É, por fim, inequívoco que o caminho da quebra das expectativas dos outros ao viver daquilo que cada um deseja é, muitas vezes, repleto de sobressaltos, mas é também promotor de equilíbrio emocional, de saúde mental e daquilo que todos querem, estar mais perto da felicidade no dia a dia.










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