Mesada, sim ou não?

- Mesada, sim ou não?

Ao longo do crescimento de uma criança é essencial que os pais vão permitindo que a criança se autonomize e, gradualmente, adquira competências associadas às atividades de vida diária, para que consigam gerir o seu dia a dia. Aqui, naturalmente, enquadra-se também aprender a gerir o seu próprio dinheiro, por isso, sim, deve existir mesada! A existência de mesada vai capacitar a criança para que se torne capaz de definir prioridades e gerir o seu próprio dinheiro. Sendo esta capacitação essencial quer para o seu desenvolvimento, quer para a sua vida adulta.



- Se sim, com que idade começar a dar mesada aos filhos?

A mesada deve acompanhar o crescimento e as necessidades dos filhos e, por isso mesmo, pode começar em alturas diferentes para diferentes famílias. Normalmente, é a partir da transição para o 5º ano de escolaridade que as crianças começam a ter necessidade de ter consigo algum dinheiro, pode, por isso, ser esse o momento em que os pais definem um valor e uma regularidade para a atribuição desse valor.

No entanto, é importante não esquecermos que aos 10/11 anos uma criança apresenta dificuldades em ter uma perspetiva a longo prazo e, tendencialmente, pensa mais balizando-se pelas necessidades e desejos do momento imediato, assim, a mesada será difícil de gerir para uma criança desta idade. Aquilo que poderá ser feito, num primeiro momento, é uma semanada. Através da semanada, é mais fácil para a criança ter noção dos gastos semanais que terá e fazer uma gestão eficiente do seu dinheiro. Posteriormente, à medida que a criança cresce e se torna adolescente - pelos 14/15 anos - a semanada pode crescer e transitar para mesada. Pois, nessa idade, passa a existir por parte do adolescente uma capacidade maior de auto-gestão e de percepcionar as necessidades que terá no futuro, tornando-se capaz de gerir uma quantidade maior de dinheiro e de distribuí-lo no tempo.



- Quanto devo dar de mesada ao meu filho? Há algum valor mais "saudável"?

A semanada ou mesada deverá ter por princípio a cobertura de todas as despesas da criança ou adolescente no seu dia a dia, o que naturalmente vai variar em todas as famílias. Assim falamos de um valor que permita, se for caso disso, cobrir transportes, alimentação, despesas específicas da criança ou adolescente, este deve ser o primeiro cálculo a fazer. Posteriormente, consoante aquilo que os pais considerem adequado deve ser adicionado um valor extra que permita actividades lúdicas ou gastos excepcionais, como lanchar com os amigos ou fazer algumas compras. Aqui, o valor para além das despesas da criança, deverá crescer à medida que a criança cresce, uma vez que as crianças mais novas, regra geral, terão menos despesas fora daquilo que estava planeado.



- Em que modalidade (dinheiro vivo, cartão físico, cartão virtual, …)?

A modalidade será o mais confortável para cada família, sendo que na prática, naturalmente em crianças mais novas a semanada será - tendencialmente - em dinheiro físico e à medida que passa para mesada e o valor aumenta passará para a modalidade de cartão. No entanto, desde que a criança/adolescente consiga gerir autonomamente a sua semanada/mesada a modalidade em que é atribuída não será assim tão significativa.



- Que cuidados devo ter quando opto por dar mesada ao meu filho?

É essencial que exista uma conversa com a criança/adolescente acerca de dinheiro, que lhe seja explicado a importância do dinheiro e a liberdade que permita a cada um de nós. Deve ser indicado à criança exatamente quais são as despesas que aquele valor deve cobrir que agora passam a ser responsabilidade dela, sempre numa perspetiva de confiança “a mãe e o pai confiam em ti, por isso, passarás a ser responsável por comprares o almoço e o bilhete de autocarro”, por exemplo. Assim, além de mostrarmos à criança exatamente para que serve aquele dinheiro, estamos a mostrar-lhe que a criança é capaz e estamos a atribuir-lhe responsabilidade direta nos seus gastos.



- Devo gerir "paralelamente" a mesada que dou ao meu filho? Pedir-lhe contas do que gastou, por exemplo?

Na fase inicial de uma semanada/mesada, é essencial que os pais possam estar alerta à gestão que a criança está a fazer do seu dinheiro. isto é, que possam verificar se a criança está efetivamente a pagar o seu próprio almoço, ou se, por outro lado, acaba por gastar o dinheiro em doces, por exemplo. A ideia será que num primeiro momento, os pais continuem a conversar com a criança acerca dos seus gastos, até que sintam que a criança se encontra preparada para gerir autonomamente a sua mesada. Isto deve ser feito durante os primeiros tempos numa perspetiva de autonomização e de educação financeira e não de controlo.

Ao longo do tempo, é importante que este apoio dos pais vá diminuindo, para que a criança se torne verdadeiramente autónoma na gestão da sua semanada/mesada.



- E se acabar antes do fim do mês, o que devo fazer?

A criança/adolescente deve ser sempre responsável por gerir o seu dinheiro até à chegada da próxima semanada/mesada. As regras devem estar definidas e, considerando que o valor é equilibrado, uma das regras será que não será atribuído um valor extra se o valor do período atual terminar. De qualquer forma, dita o bom senso e quando isto acontece, aí sim, deve existir uma conversa com a criança/adolescente, avaliar os gastos mensais e perceber o motivo de não ter sido suficiente para todo a semana/mês, consoante as circunstâncias pode ou não haver a atribuição de um valor extra.



- Devo fomentar na criança a poupança de parte dessa mesada?

Na fase inicial, devem ser mostradas às crianças todas as possibilidades e a poupança será uma delas. Se a criança aprender a poupar - mesmo que uma pequena parte - da sua semanada/mesada, para posteriormente adquirir alguma coisa com um valor importante para si, estamos a ensiná-la a pensar a longo prazo e fazer uma gestão mais eficiente do seu dinheiro.


Excerto de entrevista dada à CNN Portugal.


#escoladosentir

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