Será que a pandemia está a comprometer o desenvolvimento das crianças?

Já contamos com um ano de pandemia, que atropelou dois anos letivos, que criou barreiras entre famílias e amigos, que nos atirou para dentro de casa, e que fez o medo e a distância aparecer nas nossas vidas como um elemento diário da nossa rotina.


E se tudo isto é difícil para o adultos, às vezes, esquecemo-nos que as crianças - por mais adaptáveis e resistentes que possam parecer - não passam imunes a um período tão desafiante como este.


Isto não significa necessariamente que este período seja traumático para as crianças, mas significa que este período não representa a infância leve, feliz e repleta de aprendizagens e de experiências sociais, que todos queremos que as nossas crianças tenham e que são cruciais para o seu desenvolvimento.


De repente, há um constante “desinfecta as mãos”, “não abraces”, “não toques”, há aniversários que só são festejados com os pais, há avós e amigos dos quais as crianças ficam distantes durante longos períodos. E, claro que isto reduz em grande escala as experiências e diminui drasticamente o contexto de aprendizagem e desenvolvimento de uma criança. Se numa visão romântica, olhamos para o lado positivo, de os pais estarem mais tempo com os filhos, aprenderem a conectar-se com eles, rapidamente percebemos que, uma boa parte dos pais, está num desafio gigante de conciliar o teletrabalho, com o apoio à escola online e com as tarefas diárias, estão, por isso, tendencialmente, cansados e sem espaço e energia para promoverem todas as experiências necessárias aos seus filhos.


E é claro que aquilo que vivenciamos na nossa infância é crucial para a forma como enfrentamos o nosso dia a dia futuramente. Estamos assim, perante crianças que pelo stress e pelos medos que podem estar a vivenciar num contexto de pandemia e confinamento, poderão estar, no futuro, mais susceptíveis à vivência de experiências de ansiedade. Outra consequência possível refere-se ao estabelecimento de relações sociais, sendo a infância crucial para o desenvolvimento de empatia e para a capacidade de nos relacionarmos entre pares, aqui o que pode afetar crianças não é propriamente estarem em casa, é estarem em casa demasiado tempo num período crucial para um conjunto de aprendizagens sociais, podendo, se não estivermos atentos, gerar mais timidez e mais retração social.

Por tudo isto, é muito importante, durante e após esta pandemia, que os pais e educadores estejam atentos aos sinais que as crianças podem evidenciar de forma a, intervir em tempo real revertendo os possíveis efeitos nefastos que esta pandemia tem no desenvolvimento saudável de uma criança, nomeadamente, a nível emocional e social.


Deste modo, não nos esqueçamos que o medo - principal emoção vivenciada durante a pandemia - é capaz de entrar na vida das crianças muito rápido, no entanto, nem sempre saí das suas vidas assim tão rápido e, se não formos capazes, de ensinar as crianças a gerir-lo, este vai gerando uma angústia residual que contamina o desenvolvimento performance e bem-estar de uma criança.


Por isso, alguns dos sinais que as crianças podem evidenciar durante e após a pandemia, e aos quais devemos estar alerta, são principalmente cansaço extremo, irritabilidade, morosidade, falta de motivação, necessidade exagerada da presença dos pais, dificuldades em dormir, queixas corporais generalizadas, medos generalizados e timidez excessiva. Perante este sinais - se continuados - é essencial intervir, de forma reverter este processo e a libertar as crianças internamente de um padrão que se arrastou por demasiado tempo.

Apesar de tudo isto, desde que os adultos de referência das crianças sejam capazes de detetar sinais, que devem levar a uma intervenção e promover experiências reparadoras, é possível que os efeitos da pandemia e do confinamento sejam reduzidos à mínima. Assim, após a pandemia as crianças precisam de se sentir livres, de voltar a ter contacto físico, de partilhar sorrisos, mas principalmente, precisam de se voltar a sentir seguras, protegidas, compreendidas e soltas. Para que as novas experiências se possam tornar reparadoras e repletas de significado emocional e social.

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